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Comandante Crioulo

1/9/2006 - Redação - Afropress - Brasil

S. Paulo – Quando tinha apenas três anos, Luiz José da Cunha, o Comandante Crioulo, dirigente da ALN morto sob tortura por agentes do DOI-CODI, disse pra mãe. “Minha mãe, que morte horrível eu vou ter”. Leia mais...

O fato foi contado pela viúva Amparo Araújo (foto), durante o ato inter-religioso na Catedral da Sé para a entrega dos restos mortais do militante morto.

Luiz José da Cunha foi o único negro identificado entre os desaparecidos pelo regime militar que foram enterrados como indigentes no Cemitério de Perus. Ele foi morto na avenida Santo Amaro, à altura do 2000, no dia 13 de julho de 1.973. Faria 63 anos se fosse vivo, neste sábado, quando finalmente será enterrado com sua identidade verdadeira.

Os trabalhos de identificação iniciados por iniciativa do Ministério Público Federal e da Comissão de Familiares de Desaparecidos levou 15 anos.

O ato solene em clima de muita emoção foi dirigido pelo padre Júlio Lancelloti e teve a presença de militantes políticos da resistência à ditadura ainda vivos, como Alípio Viana Freire. Também o padre José Enes, do Instituto do Negro Padre Batista, participou da cerimônia.

O ex-ministro José Dirceu ficou todo o tempo ao lado da viúva. Também estavam o presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara Federal, Luiz Eduardo Greenhalg, o ex-ministro do Governo FHC e presidente da Comissão dos Direitos Humanos de S. Paulo, José Gregori e o ex-presidente da Comissão do Negro e Assuntos Anti-Discriminatórios da OAB/SP, Marco Antonio Zito Alvarenga.

A secretaria de Justiça e Cidadania, Eunice Prudente, não compareceu. Foi representada pela Secretária Adjunta, Evane Kramer. O ex-Secretário, o jurista Hédio Silva Jr., também não esteve no ato.

A viúva Amparo Araújo, visivelmente emocionada agradeceu os esforços do Ministério Público Federal e da Comissão de Familiares e disse que o Comandante Crioulo será finalmente enterrado neste sábado, à tarde, no Cemitério Parque das Flores, em Recife, junto ao túmulo da sua mãe, Maria Madalena da Cunha, falecida em 1.998.

Ateu por formação como militante comunista, o Comandante Crioulo teve a homenagem dos religiosos de matriz africana como Pai Francisco de Oxum, Pai Pérsio e seus ogans dos orixás Ogum e Oxóssi, e Ebomi Conceição Reis de Ogum, vice-presidente do Instituto Nacional da Tradição e cultura Afro-Brasileira (Intecab). Também participou da cerimônia Tata Nkisi Taua, presidente vitalício da Confederação das Tradições Angola Kongo no Brasil (Cobantu), com suas mametus e makotas. Eles entoaram cantos do altar da Sé ao militante morto. Ebomi falou emocionada da dor de todas as mães e da luta do povo negro por justiça e liberdade em todos os tempos.

Representantes das comunidades judaica e muçulmana de S. Paulo também participaram da celebração.

O advogado defensor de presos políticos, Idibal Piveta, ao introduzir a apresentação do Grupo União e Olho Vivo, que interpretou a canção “Silêncio”, do sambista Geraldo Filme, deixou um recado. “Já que se falou aqui em ponto final, o ponto final só virá quando todos os carrascos e algozes forem julgados”.

Durante a cerimônia as fotos de desaparecidos e mortos pela ditadura foram deixadas por familiares no altar da Sé. Um dos momentos mais emocionantes foi quando eles, portando velas, desfilaram com as fotos sob o chamado do Secretário Nacional dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, com toda a Igreja, respondendo “Presente”, a cada nome citado.

Maria Amélia Teles, da Comissão de Familiares de Desaparecidos, registrou o fato de que mesmo depois de sua morte sob tortura, o guerrilheiro morto teve sua Certidão de Óbito adulterada.

O ex-legista Harry Shibata fez constar que era branco, informação falsa, já retificada também por iniciativa do Ministério Público. O encerramento da cerimônia aconteceu com a execução do Hino “A Internacional” e com a urna com os restos mortais sendo carregada pela viúva e pelo jornalista Ivan Seixas, até o carro do Serviço Funerário.

Durante o ato o procurador Regional da República Marlon Alberto Weicherts, que iniciou os trabalhos de identificação em 99, concluídos pela Procuradora Eugênia Fávero, fez críticas ao Governo Federal que tem colocado dificuldades para abrir os arquivos da ditadura dificultando ainda a luta para identificação dos desaparecidos.

”Infelizmente, passados aproximadamente trinta anos do auge da repressão militar – disse Weicherts - ainda hoje o Poder Público parece cruel -, protegendo e defendendo a ocultação em detrimento da paz que poderia ser devolvida às famílias. Privilegia-se o silêncio como forma de proteção aos agressores, em detrimento da moral, do decoro, da honestidade, da dignidade, em suma, da justiça.”

E acrescentou: "Não se trata de rever, revisar ou proclamar vencedores. Mas sim de
abrir, dar transparência, expor, iluminar. Não haverá real superação das violências que, de parte a parte, caracterizam os períodos de exceção, enquanto inexistir a abertura plena dos arquivos que permitiriam conhecer, efetivamente, os fatos vividos. Impossível o amadurecimento, sem o conhecimento “.

 

 

 

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