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Temas em Debate

 

Alguns elementos do debate acerca dos novos movimentos sociais.

14/5/2005 - Ernesto Grance e Maria Maneiro

Alguns elementos do debate acerca dos novos movimentos sociais.


 


Ernesto Grance


Maria Maneiro


 


 


Conteúdo


v      Considerações Iniciais


v      Breve resumo dos textos apresentados


v      Algumas interrogações que atravessam a seção


v      Possíveis entradas para a discussão


 


Considerações Iniciais


Talvez muitos pensem que este tema já tenha sido discutido em demasia, e isso Possivelmente é verdade. Contudo, ainda permanece em aberto. E, pensamos (ou pelo menos desejamos) ser possível contribuir em um aprofundamento de nossa reflexão, a partir da sugestão dos textos que constituem este Tema em Debate.


Com este objetivo apresentamos sete artigos, alguns com maior ênfase teórica, outros empírica. Para os textos empíricos selecionamos aqueles que se referem aos movimentos de trabalhadores rurais sem terra, já que este tipo de movimento é o mais importante no Brasil e, geralmente, o menos trabalhado na bibliografia internacional. Incluímos também um artigo que tenta dar conta da bibliografia mais relevante sobre o tema (com certeza haverá exclusões), que possivelmente será de ajuda para aqueles que estão tentando aprofundar sua formação sobre o tema.


Breve resumo dos textos apresentados


“Os novos movimentos sociais” de Boaventura de Sousa Santos. Este artigo abre um espectro mais do que interessante, e se constitui no marco da presente seção. Nele o autor reflete sobre a problemática da cidadania e da subjetividade em relação aos novos movimentos sociais.


“Os movimentos sociais latino-americanos: tendências e desafios ” de Raúl Zibechi. Este artigo, sumamente atual, constitui uma interessante aproximação genérica aos movimentos sociais da América Latina, tentando dar conta das aparições de novos sujeitos nos anos recentes.


 “Arqueologia dos movimentos sociais” de Eurípedes da Cunha Dias. Este trabalho levanta a discussão sobre os movimentos os sociais, em relação à inclusão ou não dentro destes do que ela nomeia como movimentos populares tradicionais. A discussão, boa em si mesma, nos dá algumas ferramentas para continuar refletindo sobre o conceito de movimento social.


“Sobre os sentidos das novas formas de protesto social no Brasil. Os impactos das ações do MST sobre o sindicalismo rural” de Marcelo Carvalho Rosa. Este Artigo mostra como o MST impacta, de vários modos, a mais tradicional federação de trabalhadores rurais do país.


“‘Sem Terra’, ‘Assentados’, ‘Agricultores familiares’: considerações sobre os conflitos sociais e a forma de organização dos trabalhadores rurais brasileiros” de Leonilde Servolo de Medeiros. Este trabalho mostra em uma aprofundada análise as origens históricas dessas categorias e suas conotações políticas.


“Os novos movimentos de classe: reflexões e interrogações sobre a organização política e sindical dos trabalhadores brasileiros” de Jefferson Davidson Dias de Moura. Aqui o autor propõe uma articulação de alguns elementos que permitem olhar para os movimentos como organizadores de uma luta contra-hegemônica, sendo, portanto, uma expressão de classe.


“Assentamentos do MST e identidade coletiva” de Célia Regina Vendramini. Nesta aproximação a autora coloca o acento na produção de uma identidade coletiva desenvolvida nos assentamentos do MST.


 


Estes textos, conforme explicitado na apresentação da seção, tentam mais do que fechar a discussão, contribuir para abrí-la e aprofundá-la. Conformam diferentes pontos de vista acerca dos movimentos sociais, em várias dimensões: na sua concepção, na suas origens, na sua gênese, nos seus limites, na sua abrangência e na sua novidade.


Não pretendemos com eles, certamente, dar conta de todas as preocupações que se abrem nesta discussão, mas sim, tentamos abordar ao menos alguns elementos na direção do debate sobre a relação entre os novos movimentos sociais populares e as identidades de classe.


         Algumas interrogações que atravessam a seção :


·         Que diferencia/assemelha os movimentos sociais atuais nos países ricos àqueles que emergem em nossas sociedades? Será que esta diferença, se houver, é tão importante que sob o mesmo nome constatam-se duas problemáticas diferentes? Será que, apesar das diferenças, têm elementos em comum?


·         Será que os novos movimentos sociais têm apenas diferenças com os movimentos clássicos? Seus militantes não terão aprendido nada deles? Porque resultam tão salientadas as diferenças e poucas vezes se busca matizá-las, contextualizando as novidades em um âmbito de historicidade, que decerto possui pelo menos algumas continuidades?


·         Precisamos de alguns elementos além dos que temos nestas matrizes teóricas para compreender o MST e os demais movimentos de trabalhadores rurais? Estes se encaixam perfeitamente nas caracterizações dos autores apresentados? Será que é necessário incluir mais determinações, considerando as particularidades regionais, culturais, de relação com o Estado, com os partidos políticos, etc. para abarcar cada um dos tipos de movimentos?


Aqui apresentamos apenas algumas de nossas interrogações, muitas outras poderiam ser levantadas. Não obstante, tentaremos com estas fazer um brevíssimo percurso de entrada na discussão.


 


Possíveis entradas para a discussão


Muitas vezes temos ouvido que as ciências sociais, como conjunto de produção de saberes dentro de um campo específico, descobriram ou, mais precisamente re-descobriram, na década de oitenta, aos movimentos sociais.


Esta afirmação é verdadeira, mais também injusta. Devemos esclarecer que muitos cientistas sociais trabalhavam com estes temas há tempos, só que em certos espaços acadêmicos o tema ainda não tinha o status que assumiu depois.


Dois nomes foram centrais neste redescobrimento: Alain Touraine e Manuel Castells publicaram no final da década de setenta alguns dos trabalhos que instalam a re-fundação da temática sobre novos movimentos. Foi Touraine quem chegou a afirmar que os movimentos sociais eram o objeto da sociologia e Castells quem, a partir de sua indagação pelos movimentos sociais urbanos, lhes outorgou visibilidade.


Não é nossa idéia discutir as sugestões destes autores, já que isso foi feito várias vezes. Se o trabalho de Touraine, especificamente no Le retour de lacteur (O retorno do ator) tem, pelo menos para nós, um forte conteúdo eurocêntrico, as interessantes abordagens de Castells colaboraram mas não deram conta dos inúmeros movimentos sociais, muitos deles rurais, que são centrais na América Latina.


Hoje é um consenso que vários aspectos diferenciam aos novos movimentos sociais dos paises pobres com aqueles dos países ricos. Nas palavras de Boaventura de Sousa Santos, os movimentos dos países centrais referem-se a temas tais como a ecologia, o feminismo, o pacifismo ou de consumidores, entretanto aqueles da América Latina possuem uma ligação de base diferente, são movimentos populares com reivindicações fortemente relacionas às necessidades de subsistência e com características impuras, o que significa dizer que misturam mais de uma identidade, juntando, por exemplo, elementos de classe com juízos étnicos ou sexuais, etc.


Mas será que não há nada que unifique aos variados novos movimentos? Provavelmente aquilo que unificava até pouco tempo atrás a uma heterogeneidade de novos movimentos sociais era sua uma ênfase nas preocupações micro-políticas, que remetem mais de perto à vida cotidiana e que referem às vezes a territorialidades mais locais. Porém, o movimento antiglobalização, com ações em diversas cidades, até às vezes simultâneas, mostrou que esta característica o deixava fora, e por isso não abarcava a totalidade de expressões.


Outras vezes, afirmou-se que sua identidade remeteria mais a uma forma de organização que promove a democracia direta e as formas não institucionalizadas de organização, como também à ação direta como forma de luta; talvez, estes elementos constituam, com maior ou menor ênfase, a grande maioria do que geralmente concebemos como novos movimentos sociais. Não obstante, será que estas formas de organização – baseadas em uma forma de democracia mais participativa –  não supõem o germe de outro tipo de institucionalização, mais do que uma não institucionalização?


Contudo, dirão alguns autores, todos pareceriam ter alguns elementos em comum que demarcam seus limites. Muitos autores salientam, desta forma, que os novos movimentos sociais tomam em consideração o que para alguns pareceriam ser novas opressões, ou para outros, velhas opressões mas, às vezes pouco levantadas pelos clássicos movimentos sociais. Dirão que se o clássico movimento social popular foi o movimento sindical, hoje uma heterogeneidade de movimentos populares emerge dando visibilidade a algumas opressões não levadas em conta anteriormente.


Numa tentativa de caracterização dos novos movimentos sociais na América Latina, Raúl Zibechi, no texto que se inclui nesta seção, afirma que estes se caracterizam:


1.      pela conquista de novas territorialidades para além das fábricas e das fazendas;


2.      pela independência em relação aos partidos políticos e aos sindicatos.;


3.      pela revalorização da cultura e da identidade de seus povos;


4.      pela formação de seus próprios intelectuais;


5.      por um maior papel das mulheres;


6.      pela preocupação pela organização do trabalho e a natureza.


Porém, estas diferenciações taxativas com os velhos movimentos, são bem mais salientadas por alguns trabalhos teóricos mais do que pelas abordagens empíricas. Mais, possivelmente não signifique desmerecer as novidades dos novos movimentos, observar que nem tudo é tão diferente e que muitas vezes estes elementos que se apresentam como característicos nestes são mais nortes e horizontes que realidades concretas hoje.


Afirmávamos, então, que as abordagens empíricas constatam uma série de relações entre “velhos” e “novos” movimentos que não são facilmente demarcáveis e que denotam relações de fixação de limites, de competência, de repertórios de protestos diferentes, embora também relações de cooperação, de uns influenciando aos outros, trabalhando juntos, etc. como se pode observar no texto de Marcelo Carvalho Rosa que incluímos neste Tema em Debate.


 Mais uma vez, os casos históricos dão conta de uma riqueza dificilmente rotulável. Alguns dos textos que acrescentamos a este debate, o texto de Eurípides da Cunha Dias,  sugere interessantes semelhanças existentes entre os movimentos populares tradicionais como a Sabinada e os novos movimentos sociais.


         Se, como diz Zibechi, uma característica dos novos movimentos sociais é a revalorização da cultura e a identidade popular, possivelmente seja parcial dizer que a intervenção destes gera apenas uma revalorização da cultura própria; melhor seria, talvez, como afirmam outros autores, dizer que o encontro com o movimento produza uma argamassa que mistura tanto a identidade prévia dos agentes individuais como a nova identidade – também popular, mas coletiva – que se constrói no próprio movimento; possivelmente seja desta mistura que nos fale Vendramini, no texto que apresentamos nesta seção, quando faz referencia ao passo dos trabalhadores sem terra a Trabalhadores Sem Terra.


         Muitas vezes foi salientado que os novos movimentos sociais se caracterizam por sua autonomia. Autonomia de toda instituição e de fato, esta tem sido a bandeira de vários movimentos, ajudando nas suas afirmações como sujeito social não heterônomo e independente. Mas, caberia, quiçá, que nos perguntemos qual é o limite onde a autonomia pode-se converter em isolamento? Até onde defender a autonomia, sem cair em um cerco que deixe aos grupos afastados?


         Dissemos anteriormente que não esperávamos responder a estas interrogações, mas acreditamos que explicitá-las já é um passo na reflexão de nossas ações e de nossas práticas. Pensamos que todos aqueles que estamos comprometidos com as lutas dos movimentos devemos participar do debate e tentar colaborar em aprofundarmos as discussões.


         Já é hora de terminar, porém, não queremos fechar esta pequena introdução sem tentar seduzi-los para que leiam uma das pérolas do Tema em Debate, que se acha, sem dúvida, no artigo de Boaventura de Sousa Santos. Ele introduz importantes elementos com as discussões que estamos sugerindo, promovendo uma superação de um debate clássico em relação ao impacto dos novos movimentos sociais sobre a subjetividade e a cidadania. Seu convite para lutar por novas formas de cidadania, além da modalidade liberal, supõe sair da errônea dicotomia entre movimento cidadão (ao estilo Marshall) e novos movimentos caracterizados apenas por elementos de mudanças subjetivas É, para ele, na relação dos três elementos (emancipação, subjetividade e cidadania) que poderemos achar uma forma não patológica de modernidade.


         Até aqui encaminhamos algumas contribuições para a discussão. Agora fica o apelo para que participem do Tema em debate, lendo os textos, sugerindo novas perguntas, etc. Enfim, construindo criativamente este espaço como um âmbito de debate democrático e participativo.


OUTRO BRASIL - LPP/UERJ

 

 

 

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